Um estudo recente liderado pelo Dr. Hugo Legendre, pesquisador do Departamento de Ciências da Terra e Engenharia do Imperial College London, quantificou a enorme "energia de transição" necessária para a União Europeia eliminar gradualmente os combustíveis fósseis. O estudo constatou que quanto mais rápida a transição, mais energia a sociedade precisa investir inicialmente e redistribuir, o que pode impactar temporariamente o fornecimento de energia existente. O artigo foi publicado na revista Reviews of Renewable and Sustainable Energy.

A equipe de pesquisa desenvolveu um modelo abrangente que calcula integralmente a demanda para a substituição de combustíveis fósseis por eletricidade nos principais setores econômicos, desde transporte e aquecimento até a indústria, e, pela primeira vez, incorpora a energia consumida na construção desses novos sistemas energéticos (como usinas e redes elétricas). O modelo foi aplicado a quatro cenários de eliminação gradual dos combustíveis fósseis na UE (2035, 2050, 2075 e 2100), demonstrando que o consumo anual de energia necessário para a transição aumenta drasticamente com o ritmo de desenvolvimento. No cenário mais agressivo para 2035, a demanda média anual de energia para a transição energética atinge 25% do fornecimento total de energia atual da UE, com um pico de 39%; mesmo no cenário relativamente moderado para 2035, a demanda média anual atinge 19%, com um pico de 24%. Isso significa que, durante a transição acelerada, a energia necessária para construir novas infraestruturas energéticas excederá o consumo atual de energia para extração e refino de combustíveis fósseis, o que exigirá a alocação temporária de energia de outras atividades socioeconômicas.
A análise setorial do modelo revela ainda os pontos críticos. A eletrificação do transporte rodoviário é o setor que mais consome energia, representando 29% da demanda total de energia para a transição, com mais de 70% relacionados à fabricação de equipamentos de uso final (como baterias para veículos elétricos e estações de carregamento), e não a usinas de energia. Os usos industriais não energéticos (como a produção de matérias-primas químicas) representam 21%, ocupando o segundo lugar. O estudo destaca que a transição acelerada não só enfrenta enormes desafios em termos de insumos materiais e energéticos, como também se depara com um dilema estratégico: a UE é altamente dependente das importações de petróleo e gás, e o atraso na transição agravará os riscos à segurança energética; contudo, uma transição demasiado rápida exige uma coordenação e um planeamento intersetorial sem precedentes e poderá desencadear agitação social devido a reduções temporárias no consumo de energia não essencial (como nos setores dos transportes e da indústria transformadora).
A importância deste estudo reside em trazer à luz o frequentemente negligenciado "custo físico da energia", enfatizando a necessidade de reexaminar o caminho para as emissões líquidas zero. Isto indica que os planos de transição viáveis devem basear-se na realidade física, coordenar toda a cadeia produtiva e considerar estratégias de compromisso, como a manutenção de uma eletricidade de baixo carbono despachável (por exemplo, alguma energia nuclear e hidroelétrica), a melhoria da eficiência energética e a promoção da conservação. O estudo alerta que o caminho a seguir envolverá inevitavelmente escolhas difíceis e um planeamento meticuloso; os atrasos apenas agravarão os problemas de segurança energética e de alterações climáticas.












