A equipe de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa do Câncer (CNIO), na Espanha, descobriu recentemente um novo mecanismo pelo qual as células tumorais alteram o cérebro para facilitar a disseminação do câncer. Esta descoberta revela como os tumores sequestram células do sistema imunológico para auxiliar em seu crescimento e demonstra que um medicamento já existente pode ser eficaz em bloquear esse processo.

A metástase cerebral afeta quase um terço dos pacientes com câncer e é tradicionalmente vista como uma fase de difícil tratamento. A equipe do CNIO, liderada por Manuel Valiente, concentrou-se nas mudanças no microambiente ao redor das metástases cerebrais. O estudo descobriu que, quando as células tumorais chegam ao cérebro, elas remodelam o ambiente para favorecer seu próprio crescimento. Valiente afirma: "Elas precisam mudar o cérebro por conta própria." As células tumorais ativam vias moleculares, criando um ambiente propício à disseminação.
A equipe identificou uma proteína chamada MIF, produzida pelas células tumorais, que atua como uma "chave" que se liga à estrutura CD74 na superfície das células imunes. Em condições normais, essas células que expressam CD74 combateriam a metástase, mas a MIF as reprograma, transformando sua natureza de antitumoral para prometastática. Os pesquisadores observam: "A microglia e os macrófagos CD74+ são reprogramados, passando de uma potencial natureza antitumoral para uma natureza prometastática no cérebro."
Na busca por formas de bloquear a MIF, a equipe descobriu que o medicamento ibudilast é eficaz em retardar a metástase. Este fármaco, já aprovado para o tratamento da asma, consegue penetrar no cérebro e apresenta boa tolerabilidade. A descoberta foi publicada na revista Cancer Research, tendo Laura Álvaro-Espinosa como primeira autora. Valiente planeja iniciar um ensaio clínico para abordar essa necessidade clínica não atendida da metástase cerebral.
A pesquisa também mostrou que a mudança na função celular mediada pela MIF também ocorre em doenças como Alzheimer e esclerose múltipla. Valiente acredita: "A reprogramação mediada pela MIF pode ser um ponto fraco comum em várias doenças cerebrais, um mecanismo compartilhado que pode ser alvo de terapia." Esta descoberta baseia-se no biobanco de amostras frescas de metástases cerebrais RENACER e na plataforma de teste de medicamentos METPlatform, criados pelo CNIO, recursos que já impulsionaram vários ensaios clínicos.
A metástase cerebral é um desafio no tratamento do câncer, afetando pacientes com diversos tipos, como câncer de mama e de pulmão. Atualmente, há falta de terapias específicas, mas este estudo fornece uma direção para o desenvolvimento de novos tratamentos, que podem melhorar o prognóstico dos pacientes.
Detalhes da publicação: Autor: The Spanish National Cancer Research Centre; Título: Brain metastasis study reveals how tumors hijack immune cells; Publicado em: Cancer Research (2026).










