Universidade Estadual Paulista utiliza fibras recicladas para extrair água do ar, produzindo 4 a 6 litros por dia
2026-06-23 14:31
Favoritos

De acordo com pt.wedoany.com-A Universidade Estadual Paulista (Unesp), em parceria com o Instituto Granado de Tecnologia da Poliacrilonitrila (IGTPAN), desenvolveu um sistema que utiliza resíduos têxteis reciclados para capturar a umidade atmosférica, com um protótipo experimental capaz de produzir de 4 a 6 litros de água por dia. A tecnologia, reportada pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) em 22 de junho de 2026, baseia-se em um método que transforma resíduos têxteis de poliacrilonitrila (acrílico) em polímeros superabsorventes, oferecendo uma alternativa descentralizada de abastecimento de água para regiões com escassez de chuvas, infraestrutura de alto custo e dependência de caminhões-pipa.

Fibras recicladas podem produzir água potável a partir da umidade do ar

Este sistema não visa substituir a rede pública de abastecimento, mas sim oferecer uma solução complementar para áreas remotas, regiões semiáridas, comunidades rurais e zonas urbanas com abastecimento limitado. Sua tecnologia central são módulos chamados hidrocélulas, que atuam como esponjas capturando moléculas de vapor d'água na superfície do material, liberando-as posteriormente na forma de água líquida através de aquecimento moderado entre 55°C e 80°C. O sistema é composto por 25 unidades e opera de forma híbrida, utilizando energia solar e elétrica.

O núcleo da tecnologia é o PANSAP, um polímero superabsorvente feito de fibras acrílicas recicladas. O material passa por uma reação química que transforma os resíduos têxteis em uma estrutura capaz de reter grandes quantidades de água. De acordo com um estudo publicado na revista npj Clean Water, do grupo Nature, o sistema manteve-se estável após mais de 2.500 ciclos de uso, demonstrando potencial para longa vida útil. Durante testes que duraram quase um ano, o protótipo produziu de 4 a 6 litros de água por dia. A tecnologia também se insere na economia circular, utilizando roupas descartadas, retalhos e tecidos sintéticos como matéria-prima. Dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente indicam que o mundo gera cerca de 92 milhões de toneladas de resíduos têxteis anualmente. O processo também recupera alguns subprodutos químicos da reação; a amônia liberada pode ser convertida em fosfato de amônio, um fertilizante agrícola, melhorando assim o desempenho ambiental da rota de produção. Materiais avançados usados em pesquisas de captação de água do ar, como certas estruturas metal-orgânicas, são caros e têm processos de produção complexos, enquanto o polímero derivado de fibras recicladas oferece uma rota mais simples e barata, adequada para aplicações sociais.

A água obtida pelo equipamento passa por um processo de condensação, semelhante à destilação, apresentando alta pureza e baixo teor de contaminantes. No entanto, é quase desprovida de minerais, necessitando de remineralização antes do consumo regular, com a adição de sais minerais como cálcio e magnésio. Dependendo do uso e do ambiente, o reservatório de água pode precisar de tratamento complementar com luz ultravioleta, ozônio ou outros sistemas de purificação domésticos. O avanço da tecnologia reside na capacidade de gerar água a partir da umidade, mas o uso diário ainda requer padronização, testes de campo e adaptação às normas locais.

O protótipo pode operar com energia solar, combinando aquecimento elétrico, radiação solar direta e painéis fotovoltaicos para liberar a água capturada pelas placas, o que torna a tecnologia mais promissora para comunidades isoladas com redes elétricas instáveis ou inexistentes. O design modular também facilita a expansão; uma unidade contendo cerca de 10 kg de material adsorvente pode produzir aproximadamente 6 litros de água por dia. No contexto da crise hídrica global, um relatório de 2025 da Organização Mundial da Saúde e do UNICEF mostra que 2,1 bilhões de pessoas ainda não têm acesso a água potável gerenciada de forma segura. Dados da ONU-Água indicam que cerca de 4 bilhões de pessoas enfrentam grave escassez de água pelo menos um mês por ano. A tecnologia de captação de água atmosférica pode desempenhar um papel onde as fontes tradicionais de água estão sob pressão e outras alternativas são caras ou tecnicamente inviáveis. Os pesquisadores citam o caso de Lima, no Peru, como uma área potencial de aplicação, onde o ar é úmido, mas a chuva é escassa.

Apesar dos resultados encorajadores, o sistema ainda precisa ter seu desempenho validado fora do ambiente experimental. Os pesquisadores planejam avançar para testes de campo no Peru, especialmente em áreas que já dependem da coleta artificial de neblina e de caminhões-pipa. Esta fase avaliará a durabilidade, os custos operacionais reais, a manutenção, a qualidade da água durante o uso contínuo e a aceitação da comunidade. A tecnologia, que combina água potável, energia solar e reciclagem de resíduos têxteis, demonstra um caminho prático para transformar um problema ambiental em uma solução para a escassez de água, mas não elimina a necessidade de investimentos em saneamento, recuperação de fontes hídricas e gestão pública dos recursos hídricos.

Este texto foi elaborado por Wedoany. Qualquer citação por IA deve indicar a fonte “Wedoany”. Em caso de infração ou outros problemas, informe-nos prontamente, por favor. O conteúdo será corrigido ou removido. E-mail: news@wedoany.com