De acordo com pt.wedoany.com-As primeiras deliberações do conselho diretor da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) sobre o programa de desverticalização do mercado de gás natural (Gas Release) estão na pauta da reunião desta sexta-feira (7). Membros do governo federal, integrantes da ANP e executivos do setor de petróleo e gás ouvidos pela Agência iNFRA avaliam que a Petrobras não abandonará o projeto Sergipe Águas Profundas (Seap) por causa de um possível avanço do programa.

O projeto Seap atingiu o "ponto de não retorno": a decisão final de investimento (FID) foi tomada em meados de abril, os contratos de construção das duas FPSOs P-81 e P-87 foram assinados com a SBM Offshore no final de maio, com investimento total estimado em mais de R$ 60 bilhões, e as licitações de equipamentos submarinos (subsea) também avançam bem. É o maior projeto em andamento da Petrobras, com potencial para aumentar a oferta diária de gás natural no país em até 18 milhões de metros cúbicos a partir de 2031.
O Gas Release, elaborado com base na nova Lei do Gás (14.134/2021), tem propostas regulatórias que podem prejudicar a rentabilidade do projeto. Por exemplo, pode estabelecer que a empresa dominante, a Petrobras, fique totalmente proibida de comprar a produção de poços de outras empresas e seja obrigada a vender parte do gás por meio de leilões a outros comerciantes e consumidores, com preço mínimo inicial, volume e prazo definidos pela ANP. A Petrobras considera que isso prejudicaria a viabilidade financeira de projetos como o Seap; o governo, por sua vez, quer reduzir a concentração do mercado de gás com essa medida, em articulação com ações como os leilões de gás da União.
Segundo apurou a Agência iNFRA, a Análise de Impacto Regulatório (AIR) e o processo de consulta pública, com relatoria do diretor Pietro Mendes, seguem na pauta. Mendes, Symone Araújo, Fernando Moura e Daniel Maia tendem a votar a favor; o diretor-geral Artur Watt pode pedir vista do processo para ajustar as propostas da área técnica.
A Petrobras se opõe publicamente às medidas centrais do programa, bem como a arranjos como a restrição à importação de gás de outros países. A diretora de Exploração e Produção, Sylvia Anjos, alertou no evento Sergipe Oil & Gas que o cronograma do Seap pode sofrer atrasos e que a viabilidade financeira do gasoduto de escoamento — cujo contrato estava previsto para ser assinado este ano — estaria ameaçada. A Reuters noticiou posteriormente que os estudos de implementação do gasoduto teriam sido suspensos.
Um executivo da Petrobras confirmou à Agência iNFRA que apenas a parte terrestre do gasoduto (23 km) está sendo reavaliada, enquanto a parte marítima (111 km), licitada na modalidade EPCI (contrato de engenharia, aquisição, construção e instalação), segue em andamento. A empresa não paralisou totalmente os trabalhos relacionados à etapa de escoamento de gás, mas aguarda a nova regulamentação da ANP para medir seu impacto sobre a infraestrutura. Segundo o executivo, o Gas Release pode gerar novas definições sobre o acesso de terceiros ao gasoduto, questão que está sendo tratada pela ANP em processo específico. Fontes de mercado afirmam que o investimento na parte terrestre do gasoduto deve ficar em torno de R$ 500 milhões, dependendo do nível de concorrência na licitação. "Surgiu um risco que não existia antes, e agora estamos aguardando essa regulamentação. Não estamos parados. Estamos avaliando seu possível impacto sobre o projeto", afirmou. "O custo (do projeto) está garantido, isso não muda. Mas a expectativa de retorno que existia foi ameaçada. Portanto, precisamos voltar à prancheta e ver que impacto isso causará."
Fontes do mercado, do governo e da ANP veem com ceticismo essa movimentação, classificando-a como um "jogo de pressão". Um ex-diretor da ANP afirmou que suspender o gasoduto "é um absurdo", pois envolve multas elevadas em contratos já assinados, e o Seap I e II ainda têm parceiros. Mas ele também reconheceu que a base financeira do projeto é "desafiadora e sensível": pico de produção de 240 mil barris de petróleo por dia, bem abaixo de campos do pré-sal como Mero e Búzios, com reservas descobertas há 20 anos. Os parceiros do projeto são as empresas indianas IBV (Seap I, 40%) e ONGC (Seap II, 25%), e os blocos estão localizados na Bacia de Sergipe-Alagoas, a cerca de 80 km da costa.
Outra fonte questionou se seria possível abandonar o gasoduto com os contratos das FPSOs já assinados: "Sem o gasoduto completo, o que fariam com esse gás?" Há ainda quem aponte que a Petrobras precisa do gás de Sergipe para compensar a queda da produção do pré-sal na próxima década, e que essas declarações seriam um discurso construído para barrar o Gas Release.
Na frente de exportação, a Petrobras é apontada como estando a estudar investir em uma unidade flutuante de liquefação de gás natural para exportar o produto na forma líquida, o que também é visto como uma alternativa caso seja forçada a vender parte da produção a compradores privados. Fontes da empresa afirmam que a ideia se limita ao projeto na Colômbia — onde duas descobertas recentes podem dobrar a capacidade de produção no médio prazo. Analistas de mercado consideram que a liquefação flutuante offshore não é financeiramente viável: o teto de preço do gás teria que ser fixado em US$ 3 por milhão de BTU para acomodar os custos de liquefação, e seria difícil competir com projetos de liquefação onshore ou em águas abrigadas já existentes nos EUA e que estão surgindo na Argentina.





















