De acordo com pt.wedoany.com-O processo de abertura do mercado livre de energia no Brasil para milhões de consumidores está impulsionando uma transformação estrutural no modelo operacional do setor. Essa mudança impõe novas exigências de capacidade tecnológica às empresas, especialmente em um contexto de restrições de liquidez, pressão sobre margens de lucro e gargalos de expansão de escala.
O setor de telecomunicações brasileiro passou por uma transformação de escala semelhante. Em 1998, com o fim do monopólio estatal, os serviços de telecomunicações foram privatizados e o mercado foi aberto à concorrência privada. O número de acessos de telefonia fixa e móvel saltou de 21,6 milhões em 1997 para 190,4 milhões em 2008. Esse crescimento dependeu de investimentos em tecnologia, mudanças organizacionais e diversificação de produtos e serviços; as empresas que não conseguiram se adaptar foram eliminadas pelo mercado. O setor financeiro também passou por uma transformação similar. O Banco Central do Brasil regulamentou em 2018 a criação das Sociedades de Crédito Direto (SCD) e das Sociedades de Empréstimo entre Pessoas (SEP), estabelecendo licenças específicas para modelos de negócios baseados em tecnologia inovadora e operações puramente digitais. Posteriormente, a política de open banking (banco aberto) liberou o acesso a dados antes monopolizados pelos grandes bancos. O Nubank foi fundado em 2013, com a premissa tecnológica de construir uma plataforma de baixo custo operacional e alta retenção de usuários. Em 2025, o Nubank tornou-se a instituição financeira privada com o maior número de clientes no Brasil, atendendo mais de 112 milhões de pessoas, cerca de 61% da população adulta do país, com uma receita 45% superior ao ano anterior, atingindo US$ 16,3 bilhões.
Atender um mercado potencial de mais de 90 milhões de unidades consumidoras exige uma lógica operacional baseada em dados, automação e inteligência. A inteligência artificial torna-se, nesse contexto, a principal infraestrutura para viabilizar a escala, capaz de construir uma jornada completa do cliente, abrangendo aquisição preditiva de clientes, simulação de economia de energia, automação de processos de migração e atendimento ao cliente orientado por dados. Esse modelo não substitui completamente as abordagens tradicionais, mas, sem o uso intensivo de inteligência artificial, o processo de escalonamento frequentemente acarreta custos mais altos, maior complexidade e execução mais lenta.
A tendência de abertura do mercado também está redefinindo o posicionamento das empresas, evoluindo de traders para plataformas digitais. A Octopus Energy, do Reino Unido, é um caso exemplar. Entre 2021 e 2024, a receita do grupo cresceu de £2 bilhões para £12,4 bilhões, enquanto o lucro passou de um prejuízo líquido máximo de £141 milhões em 2022 para um lucro de £83 milhões em 2024. Em 2025, a Octopus Energy ultrapassou a British Gas, tornando-se o maior fornecedor de energia do Reino Unido. Seu motor de crescimento é a plataforma tecnológica proprietária Kraken, que, até o final de 2024, já havia contratado a gestão de 51 milhões de contas, um aumento significativo em relação aos 32 milhões do ano anterior, com uma receita recorrente crescendo 68%, para £90 milhões. A Kraken também se expandiu para os setores de água e telecomunicações, licenciando sua tecnologia para empresas como Severn Trent, Portsmouth Water e Cuckoo Fibre. Em 2025, sua receita recorrente anual contratada dobrou para £422 milhões, e a avaliação da unidade após sua cisão atingiu US$ 8,65 bilhões. No setor financeiro, o Nubank também realizou uma transformação semelhante em plataforma, alcançando em 2025 12 milhões de clientes em seu segmento de serviços digitais (incluindo telecomunicações, turismo e comércio eletrônico), um crescimento de 58% em relação ao ano anterior.
O futuro da negociação de energia não depende apenas da capacidade de contratar ou gerenciar portfólios energéticos, mas também da capacidade de operar em escala de forma inteligente. No Brasil, algumas empresas já superaram a mera negociação, oferecendo serviços como licenciamento de plataformas de varejo e atacado, gestão de usinas, auditoria de faturas, gestão de contas, suporte no relacionamento com distribuidoras, energia renovável, programas de cashback, entre outros, constituindo plataformas integradas de serviços de energia.
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