De acordo com pt.wedoany.com-Uma análise da organização argentina R.A.I.C.E.S. aponta que o desenvolvimento do distrito mineiro de Vicuña não deve ser visto apenas como um novo projeto de mineração, mas como o início de uma transição territorial na província de San Juan, Argentina, do ciclo de Veladero para um novo ciclo do cobre. Essa transição implica a reorganização de atores, instituições, expectativas sociais, cadeias de valor, formas de governança e mecanismos de construção de legitimidade.

Nas últimas duas décadas, o distrito de Veladero moldou uma experiência coletiva que transcende a produção de ouro. A região acumulou experiência institucional, consolidou redes de fornecedores locais, desenvolveu capacidades técnicas e criou empregos especializados, gerando a expectativa de que a mineração seria o motor do desenvolvimento provincial. Ao mesmo tempo, Veladero deixou tensões persistentes sobre recursos hídricos, licença social, distribuição do valor econômico e as relações entre comunidades, Estado e empresas, constituindo uma memória territorial que serve como ponto de partida para a sociedade de San Juan interpretar o novo ciclo mineiro.
O distrito de Vicuña apresenta características completamente diferentes. Trata-se de um distrito mineiro bilateral, impulsionado pela aliança entre BHP e Lundin Mining, integrado a estratégias internacionais de produção de cobre relacionadas à transição energética, e acompanhado por novos marcos regulatórios, como o Regime de Grandes Investimentos (RIGI). Essa configuração altera a escala das decisões: a cadeia de suprimentos se internacionaliza, fornecedores chilenos competem, os investimentos atingem níveis sem precedentes, e as decisões empresariais respondem simultaneamente aos níveis local, nacional e global.
Uma série de eventos recentes indica o início da reorganização territorial. Debates sobre compras locais, a criação do Registro Provincial de Fornecedores Mineiros (RE.PRO.MIN.), discussões sobre o Tratado de Integração Mineira Argentina-Chile, preocupações com a competitividade dos fornecedores de San Juan e o conflito de Batidero não devem ser vistos como eventos isolados. Em conjunto, são sinais precoces de transformação territorial, refletindo os esforços da região para se redefinir e participar do novo ciclo de desenvolvimento.
A governança do distrito de Vicuña apresenta uma complexidade sem precedentes, com pelo menos quatro dimensões coexistentes: governança empresarial (organizada por BHP e Lundin Mining), governança regulatória (baseada no RIGI e no arcabouço legal argentino), governança bilateral (decorrente do Tratado de Integração Mineira Argentina-Chile) e governança territorial (envolvendo municípios, comunidades, fornecedores, câmaras e instituições provinciais). As três primeiras dimensões são relativamente estruturadas, mas a governança territorial ainda está em construção, sendo onde as principais tensões se manifestam.
Tradicionalmente, os conflitos territoriais são geralmente tratados quando evoluem para protestos, judicialização ou paralisação operacional. Metodologias desenvolvidas por instituições como a CEPAL mostram que é mais eficaz compreender as dinâmicas territoriais antes que as tensões se intensifiquem. A análise sugere que o foco deve ser deslocado dos conflitos para os processos que os geram, entendendo as transformações que reorganizam o território.
O principal desafio nos próximos anos não é apenas construir a infraestrutura mineira, mas governar uma transição territorial. Os investimentos podem ser concluídos em alguns anos, mas a construção de capacidades institucionais, expectativas sociais e legitimidade leva mais tempo. Compreender essa transição, monitorar seus sinais precoces e fortalecer a capacidade de governança territorial pode ser um fator estratégico para a sustentabilidade do novo ciclo mineiro em San Juan.










