De acordo com pt.wedoany.com-O agronegócio brasileiro tem potencial para transformar parte de sua capacidade de descarbonização em uma fonte de receita de bilhões de reais, desde que o governo federal avance na regulamentação que permita o comércio internacional de créditos de carbono no âmbito do Acordo de Paris. Essa conclusão é de um estudo realizado pela consultoria Carbonn Nature em parceria com o Instituto Equilíbrio e o Instituto de Agronegócio (IEAg), vinculado à Associação Brasileira do Agronegócio (Abag).

O conteúdo completo do estudo será divulgado em 6 de agosto durante o Fórum Agricultura e Sistemas Alimentares, realizado na Semana do Clima de São Paulo. A pesquisa estima que, entre 2025 e 2035, o setor agrícola brasileiro poderá gerar 314,3 milhões de créditos de carbono em projetos alinhados às regras do Artigo 6º do Acordo de Paris, sendo a maior parte proveniente de projetos de recuperação de áreas degradadas.
Mesmo liberando apenas uma parte desse total, seria possível gerar receita significativa para produtores rurais e empresas do setor. O estudo considera a autorização de venda de cerca de 4% dos créditos de carbono disponíveis, o equivalente a aproximadamente 15,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente, negociados por meio de Resultados de Mitigação Transferidos Internacionalmente (ITMOs) em acordos bilaterais entre países, com transações que podem alcançar R$ 2,4 bilhões. Cada ITMO equivale a uma tonelada de CO2 equivalente reduzida ou removida da atmosfera e pode ser transferido a outro país para o cumprimento de suas metas climáticas nacionais.
Se esses créditos de carbono forem utilizados no programa de Compensação e Redução de Emissões da Aviação Internacional (CORSIA), o potencial de receita sobe para R$ 3,5 bilhões. A partir do próximo ano, as companhias aéreas participantes do CORSIA deverão adquirir créditos de carbono para compensar suas emissões de CO2, o que pode ser um importante fator de impulso.
A responsável pelo estudo e sócia da Carbonn Nature, Natascha Trennepohl, afirma que a pesquisa demonstra que o Brasil pode aproveitar as oportunidades do mercado internacional de carbono sem comprometer suas próprias metas climáticas. Em entrevista à AgFeed, ela disse que, com uma regulamentação consistente e estratégica, o Brasil pode se conectar ao mercado internacional. Segundo ela, o maior obstáculo atualmente não é a capacidade do setor de gerar créditos de carbono, nem a demanda internacional, mas a falta de regras claras que autorizem a comercialização. O governo federal iniciou recentemente uma consulta pública para avaliar a possibilidade de operacionalizar contratos de ITMO. Ela ressalta que a falta de regulamentação clara dificulta a atração de investimentos — quando as empresas não conseguem confirmar se os créditos de carbono podem ser negociados no mercado internacional, investir em projetos de carbono é um empreendimento de longo prazo.
O estudo analisou diferentes cenários de autorização de créditos de carbono e concluiu que uma estratégia gradual pode gerar bilhões de reais em receita sem afetar significativamente a Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) do Brasil. A NDC brasileira no âmbito do Acordo de Paris compromete o país a reduzir suas emissões líquidas para entre 850 milhões e 1,05 bilhão de toneladas de CO2 equivalente até 2035. Créditos de carbono classificados como ITMOs não podem ser usados para o cumprimento da NDC brasileira — ao vender um ITMO, a redução de emissões nele contida deixa de ser contabilizada no inventário de CO2 do Brasil. Trennepohl afirma que não é necessário liberar todos os créditos de carbono; uma autorização em pequena escala já pode gerar bilhões de reais, mantendo o impacto sobre a NDC sob controle.
Ela avalia que países como Singapura e Suíça serão potenciais compradores de créditos de carbono ITMO, enquanto a demanda do CORSIA virá de companhias aéreas que precisam compensar suas emissões. O preço médio dos créditos de carbono negociados no mercado de ITMOs pode chegar a US$ 30 por tonelada, enquanto os créditos destinados ao CORSIA têm preço em torno de US$ 45 por tonelada.
A recuperação de áreas degradadas concentra quase todo o potencial de geração de créditos de carbono identificado no estudo. Dos 314,3 milhões de créditos previstos até 2035, 312,1 milhões podem vir de projetos de recuperação de pastagens degradadas e melhoria da gestão de terras agrícolas. O Brasil possui cerca de 160 milhões de hectares de pastagens, dos quais entre 90 milhões e 110 milhões apresentam algum grau de degradação. Além dos benefícios ambientais, a venda de créditos de carbono pode financiar a transformação das pastagens. Trennepohl afirma que o mercado de carbono não é apenas um mecanismo de compensação — quando aplicado à recuperação de pastagens, ele se torna uma fonte de capital que financia diretamente o aumento da produtividade da terra, sendo um caminho para o dinheiro do clima chegar ao bolso do produtor rural.
Os pesquisadores analisaram apenas projetos brasileiros registrados na certificadora internacional Verra e alinhados às regras do Artigo 6º do Acordo de Paris, confirmando duas metodologias já utilizadas: uma focada na melhoria da gestão de terras agrícolas, incluindo práticas como a recuperação de áreas degradadas; e outra relacionada à redução das emissões de metano no manejo de dejetos animais. Natascha Trennepohl afirma que considerar apenas projetos já registrados ou em estágio avançado de certificação torna o estudo mais conservador e próximo da realidade. Ela diz que a pesquisa não faz projeções sobre tecnologias que ainda não foram certificadas no Brasil.
Ela ressalta que esses valores representam potencial econômico, e não receita garantida. A comercialização efetiva dependerá da regulamentação brasileira, da assinatura de acordos bilaterais e da presença de compradores internacionais. Ela afirma: "O Brasil já fez a parte mais difícil, que é provar que tem escala, metodologia e integridade ambiental. O que falta agora é remover os obstáculos regulatórios para transformar esse potencial em investimentos, projetos e renda para os produtores rurais."















