Acordo UE-Mercosul impulsiona transformação econômica na Argentina
2026-06-08 11:51
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De acordo com pt.wedoany.com-A entrada em vigor provisória do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul traz uma mudança de paradigma econômico para a Argentina, envolvendo não apenas a exportação de produtos tradicionais, mas também redefinindo o panorama de investimentos, o papel dos serviços profissionais e expondo assimetrias setoriais entre os dois blocos regionais.

Para o especialista em comércio exterior Marcelo Elizondo, o verdadeiro benefício para as pequenas e médias empresas (PMEs) locais não reside no tradicional "aumento das exportações", mas sim na integração às cadeias produtivas globais. Ele acredita que as oportunidades de investimento e parceria entre empresas europeias e argentinas podem fortalecer as PMEs argentinas, criando um ecossistema de ação conjunta. Isso é particularmente importante para uma região historicamente fechada: as exportações argentinas representam apenas 16% do PIB, enquanto a média mundial é de 30%. O acordo representa uma oportunidade de acesso a um mercado "altamente importador" por meio da simplificação de procedimentos e harmonização regulatória.

Horacio Pereira, pesquisador do Centro de Estratégia Governamental e Organizações Internacionais da Universidade Austral, complementa que a oportunidade não está apenas em exportar mais, mas também em atrair investimentos, melhorar a produção e ascender nas cadeias de valor. Gabriel Gamarra, diretor de Impostos e Assuntos Jurídicos da KPMG Argentina, destaca o impacto institucional do texto em áreas como desenvolvimento sustentável e sociedade inclusiva, apontando que a harmonização regulatória pode ser um fator de melhoria da qualidade institucional, promovendo maior transparência, consistência normativa e estabilidade das políticas públicas.

Enquanto alguns setores industriais adotam uma postura cautelosa em relação ao processo do acordo, o setor de serviços vislumbra oportunidades imediatas, como a orientação para empresas europeias interessadas em se estabelecer na Argentina. Natalia Facciolo, presidente da FEBA Mulheres Empresárias, CEO da LUDMARC, líder comunitária do eTrade for Women na América Latina e vice-presidente da Aliança de Mulheres Empresárias, enfatiza que mais de 250 câmaras de comércio na província de Buenos Aires possuem a estrutura necessária para acompanhar uma empresa europeia em sua instalação local e fornecer um conhecimento real da região. Jimena Martin, advogada e empresária do setor metalúrgico, cofundadora e CEO do Grupo Baires, explica como a complexidade normativa local pode ser transformada em uma estrutura compreensível e previsível para investidores estrangeiros. Clara Altamirano, fundadora e CEO da Claridad en Acción, ressalta a necessidade de uma interpretação intercultural, humana e estratégica para consolidar esses investimentos, apontando que a coordenação entre profissionais, especialistas e empresas é crucial para atender aos exigentes padrões.

Na economia real, os impactos variam por setor. O setor vinícola adota uma postura cautelosa, mas confiante. Magdalena Pesce, CEO da Wines of Argentina, afirma que a abertura deve intensificar a concorrência no segmento premium com vinhos brancos e rosés franceses e portugueses. Ela vê o acordo como um selo de credibilidade internacional, que elimina o estigma da Argentina como uma economia fechada e posiciona o país como um parceiro confiável no bloco comercial mais rigoroso do mundo. Por outro lado, o setor de azeite de oliva soa o alarme. José Chediack, presidente da SolFrut, critica as condições desiguais decorrentes dos subsídios europeus, apontando que, em regiões como a Andaluzia, esses subsídios representam 30% da renda dos produtores. Ele argumenta que o acordo coloca os produtores argentinos para competir com o maior produtor mundial, a Espanha, em condições profundamente desiguais, onde a maioria dos olivais espanhóis não seria economicamente viável sem esse apoio estatal. Ele defende a criação de mecanismos de salvaguarda e a realização de estudos técnicos independentes para lidar com possíveis práticas de dumping.

De modo geral, o acordo enfrenta atritos políticos no mercado-alvo. Facciolo relata tensões observadas diretamente na França, onde redes de supermercados locais anunciaram boicote a produtos sul-americanos, enquanto pecuaristas denunciam concorrência desleal. Christian Fuciños, sócio-líder da prática de Consultoria em Comércio Global da Deloitte, alerta que o sucesso do acordo depende de como as empresas incorporarão essas novas regras em suas operações. A Câmara de Exportadores da Argentina (CERA) aponta que as oportunidades iniciais de exportação podem ser limitadas pelo tamanho relativamente pequeno das cotas, que ainda precisam ser distribuídas internamente pelo Mercosul, tendendo a transferir o principal potencial do acordo para a atração de investimentos produtivos.

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