De acordo com pt.wedoany.com-A Associação Latino-Americana de Aço (Alacero) prevê que o consumo aparente de aço na região em 2026 crescerá apenas 0,5% em relação ao ano anterior, atingindo 75,6 milhões de toneladas, e em 2027 deverá aumentar 2,5%, para 77,5 milhões de toneladas. O diretor-executivo da associação, Ezequiel Tavernelli, em entrevista ao boletim divulgado pela plataforma FastMarkets, afirmou que essa perspectiva contrasta com o desempenho da produção siderúrgica, que ainda se aproxima dos níveis mais baixos dos últimos 15 anos.
A associação, que em fevereiro deste ano previa um crescimento de 2,8% no consumo aparente de aço na América Latina em 2026, já reduziu sua projeção em 2,3 pontos percentuais. A Alacero estima que a produção total de aço bruto na América Latina em 2025 seja de cerca de 55,7 milhões de toneladas, abaixo do nível registrado durante a pandemia de Covid-19 em 2020, sendo um dos desempenhos mais fracos da série histórica. A produção de aços acabados segue tendência semelhante, totalizando 42 milhões de toneladas em 2025, com previsão de leve aumento para 42,2 milhões de toneladas em 2026, embora o consumo de aço na região ainda apresente relativa resiliência.
"Não estamos enfrentando um colapso no consumo. O problema é que a produção continua caindo, enquanto as importações aumentam cada vez mais", afirmou Tavernelli em entrevista exclusiva à Fastmarkets no início de junho.
Segundo dados da Alacero, o consumo aparente de aço na região se manteve em torno de 74 a 75 milhões de toneladas ao longo dos anos, mas as importações aumentaram de cerca de 20 milhões de toneladas há alguns anos para mais de 30 milhões de toneladas atualmente. Em 2025, a taxa de penetração das importações atingiu um recorde de 41% do consumo regional. Tavernelli afirmou que, para cada dez quilos de aço consumidos na América Latina, quatro são importados, a maioria proveniente de países que se beneficiam de apoio governamental e capacidade ociosa.
O ajuste de estoques é um fator-chave que limita o crescimento em 2026. A Alacero tem expectativas mais fracas para Argentina, Colômbia e vários mercados menores da América Latina, principalmente devido à fragilidade do setor de construção civil e ao ajuste de estoques após o grande volume de importações em 2025. Tavernelli explicou que as importações na região foram fortes em 2025, mas grande parte do material não foi diretamente destinada ao consumo, portanto, espera-se que o crescimento do consumo de aço em 2026 seja próximo de zero.
Em termos de estrutura de demanda, a construção civil continua sendo o maior setor consumidor de aço na América Latina, respondendo por cerca de 50% da demanda regional, sendo os níveis de atividade habitacional e de infraestrutura particularmente importantes para as perspectivas do mercado. O setor automotivo representa 18% da demanda, sendo o segundo maior setor consumidor, embora sua produção tenha perdido impulso na segunda metade de 2025. Os produtos metálicos respondem por outros 14% da demanda, e as máquinas e equipamentos, por 13%, sendo um dos setores industriais com melhor desempenho no ano passado, impulsionado pelo crescimento no Brasil, Argentina e Chile. Eletrodomésticos e equipamentos elétricos representam 2% cada, e outras aplicações no setor de transportes completam o restante. A Alacero prevê que, apesar do desempenho desigual entre os setores, a atividade industrial melhorará gradualmente, à medida que investimentos, gastos em infraestrutura e crescimento econômico ganham força.
A associação espera uma melhora em 2027, com a demanda regional de aço crescendo 2,5%. Brasil e México continuam sendo os principais motores do crescimento, impulsionados por medidas comerciais e políticas industriais implementadas recentemente; a Argentina pode se beneficiar de investimentos em projetos de energia e mineração; e a Colômbia também deve retomar o crescimento. Tavernelli afirmou que a melhora esperada não deve ser vista apenas como uma recuperação de um ano fraco. Ele destacou que o consumo per capita de aço na América Latina ainda é de cerca de 100 kg, enquanto nas economias desenvolvidas varia entre 180 e 250 kg, e países como China e Coreia do Sul consumiram ainda mais durante suas fases de industrialização. Ele acredita que a região ainda tem enorme potencial de crescimento por meio do desenvolvimento de infraestrutura e da expansão industrial.

Em nível nacional, a Alacero prevê que o consumo aparente de aço do Brasil em 2026 cresça 0,9%, para 27 milhões de toneladas, e em 2027 aumente mais 2,5%, para 27,7 milhões de toneladas. O México deve apresentar o crescimento mais significativo, com a demanda aumentando 4,0% em 2026, para 26 milhões de toneladas, e mais 3,2% em 2027, para 26,8 milhões de toneladas. Em contraste, a demanda de aço da Argentina em 2026 deve cair 0,8%, para 3,9 milhões de toneladas, com recuperação de 8,6% em 2027; o consumo da Colômbia deve cair 2,4%, para 3,8 milhões de toneladas, com crescimento de 3,3% no ano seguinte. A demanda dos mercados menores da América Latina deve cair 4,9% em 2026.
A Alacero considera o excesso de capacidade global de produção de aço como a maior ameaça à região. De acordo com dados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) citados pela associação, o excesso de capacidade global de produção de aço deve aumentar de 640 milhões de toneladas em 2025 para 721 milhões de toneladas em 2027. Mais da metade da produção global de aço bruto vem da China. Tavernelli destacou que a demanda doméstica de aço na China continua caindo, mas a produção ainda se aproxima de 1 bilhão de toneladas por ano, gerando um grande excedente disponível para exportação. "Somente a China tem mais de 200 milhões de toneladas de produção de aço excedendo a demanda doméstica, o que é aproximadamente quatro vezes a produção anual de aço da América Latina." Ele acrescentou que os investimentos de empresas siderúrgicas chinesas no Sudeste Asiático e o crescimento das exportações de países como Vietnã, Coreia do Sul, Egito e Turquia agravam ainda mais o problema.
A Alacero recebeu com satisfação as medidas comerciais adotadas por Brasil, México, Colômbia e Peru, considerando que ajudam a desacelerar as importações de comércio desleal. No entanto, Tavernelli alertou que a América Latina ainda está vulnerável ao desvio de comércio, à medida que os Estados Unidos e a Europa continuam fortalecendo suas barreiras contra importações de aço subsidiadas. "Estamos preocupados com os países da região que não possuem mecanismos de defesa adequados. O aço que não consegue mais acessar outros mercados continuará buscando destinos de exportação com menos proteção." Ele mencionou que a avaliação da Fastmarkets para importação de bobinas laminadas a quente, CFR principais portos sul-americanos, na sexta-feira, 19 de junho, era de US$ 650 a US$ 690 por tonelada, uma queda de US$ 15 a US$ 20 em relação à faixa de US$ 665 a US$ 710 por tonelada da semana anterior.
Na visão da Alacero, o aumento das importações está alimentando um processo mais amplo de desindustrialização na América Latina, com a participação da indústria manufatureira no PIB diminuindo nas últimas décadas, e as exportações dependendo cada vez mais de matérias-primas em vez de produtos manufaturados de maior valor agregado. Tavernelli afirmou que os desafios do setor vão além dos preços do aço e dos fluxos comerciais, envolvendo questões mais amplas de competitividade industrial. "Temos matérias-primas, recursos energéticos, base industrial e talento para nos tornarmos uma das regiões mais fortes do mundo na produção de aço. Mas precisamos de condições de concorrência equitativas para que a indústria local cresça junto com o desenvolvimento econômico da região."
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