Metrô de São Paulo descobre sítio de quilombo e adiciona R$ 3,6 bilhões ao orçamento
2026-06-10 09:17
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De acordo com pt.wedoany.com-Durante a construção da Linha 6-Laranja do Metrô de São Paulo, a descoberta de um sítio arqueológico de uma comunidade de escravos fugitivos do século XIX resultou em um acréscimo de R$ 3,6 bilhões ao orçamento e na alteração do plano de obras, elevando o custo total da linha para R$ 19 bilhões.

Em 2022, durante a escavação do projeto no bairro histórico de São Paulo, uma sonda perfuratriz descobriu os vestígios enterrados do Quilombo Saracura, do século XIX, incluindo cerâmica, moedas, couro de sapatos e objetos sagrados de religiões de matriz africana. O sítio estava localizado a vários metros de profundidade no local planejado para a Estação 14 Bis-Saracura (antiga região da Bixiga). Esta descoberta levou a uma reavaliação da história da região: no século XIX, antes da chegada dos imigrantes europeus, o local serviu como refúgio para escravos fugitivos, formando um dos primeiros assentamentos urbanos de quilombos em São Paulo. Uma comunidade de lavadeiras, vendedores de ervas e trabalhadores informais sobreviveu às margens do rio por décadas, dando origem a uma das escolas de samba mais tradicionais do país.

Com a aceleração da urbanização e a grande chegada de imigrantes europeus após 1880, a presença negra na região foi sistematicamente apagada pela narrativa oficial, e o assentamento desapareceu dos mapas e da memória coletiva. As escavações do metrô em 2022 trouxeram essa história esquecida à luz do dia.

As obras foram imediatamente paralisadas, e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) interveio para avaliação. A descoberta arqueológica foi considerada um dos maiores sítios arqueológicos já encontrados em obras urbanas no Brasil. Segundo o movimento Mobiliza Saracura Vai-Vai, dezenas de milhares de objetos foram desenterrados durante as escavações, incluindo contas, conchas e uma estátua de ferro que possivelmente representa o orixá Exu. Historiadores concluíram que o local abrigava um terreiro de religião de matriz africana.

Reconstituição artística do Quilombo Saracura do século XIX, às margens do antigo rio Saracura, onde lavadeiras, vendedores ambulantes, ervateiros e trabalhadores negros estabeleceram uma comunidade de refúgio e resistência, área que mais tarde se tornaria a região da Bixiga.

Vista aérea da área de escavação da futura Estação 14 Bis-Saracura (localizada na Bixiga), onde as obras da Linha 6-Laranja revelaram vestígios do antigo Quilombo Saracura, com mais de 40 mil objetos arqueológicos encontrados, causando um impacto de bilhões de reais no cronograma do Metrô de São Paulo.

Os atrasos causados pela escavação arqueológica e um acidente geológico em outro trecho da obra ameaçaram adiar a inauguração da linha em mais de 1.000 dias, com o cronograma original podendo ser estendido até 2028. Para evitar um colapso ainda maior no prazo, o governo do estado de São Paulo decidiu alterar completamente o método de escavação da estação. Este ajuste custou R$ 3,6 bilhões adicionais (fonte: Artesp revelou ao Terra/Estadão). A concessionária Linha Uni, responsável pelas obras, declarou que as mudanças têm respaldo técnico e legal. A Artesp reconheceu que, sem essa medida de ajuste, os custos chegariam a R$ 4,4 bilhões. Segundo dados da Artesp, o custo total da linha já atingiu R$ 19 bilhões.

Em junho de 2024, o governo do estado de São Paulo renomeou oficialmente a estação para Estação 14 Bis-Saracura, em homenagem ao sítio arqueológico e à história negra da região. A medida atendeu a uma reivindicação do movimento Mobiliza Saracura Vai-Vai, composto por mais de 150 organizações.

Vista aérea das obras da futura Estação 14 Bis-Saracura no centro de São Paulo, onde a Linha 6-Laranja descobriu vestígios do antigo Quilombo Saracura, transformando uma escavação de metrô em uma das descobertas arqueológicas urbanas mais notáveis do país.

Em março de 2026, o Iphan concluiu os trabalhos de escavação arqueológica e autorizou a retomada total das obras. O instituto decidiu que parte dos artefatos descobertos será exposta dentro da própria estação, transformando o metrô em um memorial permanente da história da resistência negra em São Paulo. (Fonte: reportagem do Terra/Estadão de abril de 2026)

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