De acordo com pt.wedoany.com-A startup israelense de cibersegurança com IA Dream triplicou sua avaliação este ano, atingindo US$ 3 bilhões, e está se expandindo para a América Latina. A empresa tem como alvo governos alinhados a Washington, uma região onde os ataques cibernéticos crescem 25% ao ano, segundo relatos, e as capacidades de defesa nacional estão entre as mais fracas do mundo.

Essa expansão chama atenção devido ao histórico de seu cofundador. Shalev Hulio fundou o NSO Group, empresa israelense de vigilância cujo spyware Pegasus foi usado por governos de mais de 50 países para monitorar jornalistas, ativistas e opositores políticos.
Hulio fundou a Dream em janeiro de 2023, poucos meses após renunciar ao cargo de CEO da NSO. A empresa afirma ser puramente defensiva, oferecendo aos governos uma plataforma baseada em IA para detectar ameaças e corrigir vulnerabilidades, em vez de criar ferramentas ofensivas de vigilância. Seus cofundadores incluem o ex-chanceler austríaco Sebastian Kurz e Gil Dolev, fundador da Wayout Group, empresa de coleta de inteligência. Kurz foi condenado em fevereiro de 2024 por fazer declarações falsas a uma comissão parlamentar de inquérito, mas foi absolvido em recurso em maio de 2025.
A Dream possui escritórios em Tel Aviv, Viena e Abu Dhabi, com mais de 300 funcionários, e planeja abrir um escritório em Munique. A empresa construiu um data center soberano perto de Modi'in, em Israel, onde treina seu modelo de linguagem proprietário sem depender de provedores de nuvem pública.
A América Latina é o mercado de crescimento mais rápido para ataques cibernéticos globais, com um aumento estimado de cerca de 25% ao ano no número de incidentes, segundo estimativas do setor. Uma avaliação do Banco Mundial atribuiu à região uma pontuação média de 10,2 em 20 para preparação em cibersegurança, embora a metodologia e a data específica desse número não possam ser verificadas de forma independente. A Costa Rica demonstrou o risco em 2022: o grupo de ransomware Conti atacou cerca de 30 agências governamentais, exigindo um resgate de US$ 10 milhões, forçando o presidente Rodrigo Chaves a declarar estado de emergência nacional em 8 de maio, tornando o país o primeiro a tomar essa medida devido a um ataque cibernético. Semanas depois, o grupo Hive atacou o sistema de saúde do país, forçando hospitais a voltar a usar papel e caneta. Esses dois ataques paralisaram os serviços públicos por meses.
A entrada da Dream na região coincide com uma virada à direita, com vários líderes pró-Israel assumindo o poder. Javier Milei, da Argentina, posicionou o país como um centro de IA e prometeu mudar sua embaixada para Jerusalém. Na Colômbia, Abelardo De la Espriella venceu o segundo turno das eleições presidenciais em 21 de junho com 49,66% dos votos e prometeu restaurar as relações diplomáticas com Israel. Esse alinhamento é crucial para as vendas da Dream, pois vender plataformas soberanas de IA para agências de segurança nacional exige um certo grau de proximidade política, e sua identidade israelense é um trunfo nas capitais com laços mais estreitos com Jerusalém.
A expansão da Dream para uma região onde tecnologias de vigilância foram exportadas para governos com histórico questionável de direitos humanos levanta escrutínio. O NSO Group foi colocado na lista negra do Departamento de Comércio dos EUA em novembro de 2021, após a descoberta do Pegasus em telefones de jornalistas, dissidentes e pelo menos um membro do Parlamento Europeu. Hulio se distanciou desse histórico, renunciando ao cargo de CEO em agosto de 2022, durante uma reestruturação da empresa. Investidores da Dream, liderados pela Bicycle Capital e Group 11, aceitam seu argumento de que cibersegurança defensiva e vigilância ofensiva são negócios completamente diferentes. Se os grupos da sociedade civil latino-americana farão a mesma distinção ainda é uma questão em aberto.
As vendas da Dream já ultrapassaram US$ 300 milhões, mais que dobrando nos últimos dois anos. O mercado de IA de defesa soberana está atraindo novos entrantes; startups como a Rilian estão captando recursos para implantar IA em ambientes governamentais com lacuna de ar (air-gapped), mas o porte da Dream e suas relações governamentais lhe conferem uma vantagem significativa de pioneirismo. A empresa opera em três continentes, com clientes soberanos do Oriente Médio sendo alguns dos maiores, embora não divulgue os nomes de seus clientes governamentais. A América Latina adicionará um quarto continente e uma base de clientes com orçamentos de cibersegurança extremamente baixos, mas em crescimento.










