Brasil planeja criar mercado único de aviação com vizinhos sul-americanos em etapas
2026-07-22 11:48
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De acordo com pt.wedoany.com-O ministro de Portos e Aeroportos do Brasil, Tomé Franca, afirmou que o país tem a oportunidade de criar um mercado único de aviação com nações sul-americanas e oferecer maior flexibilidade para companhias aéreas estrangeiras operarem voos domésticos no Brasil, possibilidade atualmente totalmente proibida por lei. Franca fez essa avaliação em entrevista à Agência iNFRA. A iniciativa inicial começou com a assinatura de memorandos de entendimento com Argentina, Chile e Paraguai, e o Uruguai também deve aderir.

O avanço do Brasil na liberalização da aviação dependerá de estudos realizados em um ano por um grupo de trabalho composto por representantes de cada país signatário. Questões sensíveis historicamente usadas como justificativa para o Brasil fechar voos domésticos a companhias estrangeiras, como questões trabalhistas e de concorrência, serão analisadas e discutidas nesse âmbito com os setores afetados. O governo espera ver um espaço aéreo brasileiro mais aberto e interconectado, embora possa ser necessário fazê-lo em etapas e modificar leis. O ambiente político é considerado favorável ao avanço da agenda no Congresso, já que ambas as casas aprovaram projetos de lei com intenções semelhantes.

Franca afirmou que o primeiro objetivo do grupo de trabalho é colocar na mesa as regulamentações e condições operacionais de cada país, envolvendo leis trabalhistas e de defesa do consumidor, para então analisar como estruturar tudo isso e trabalhar para alcançar um mercado único, que pode ser feito até mesmo em etapas. Ele assinou formalmente o acordo na semana passada em Assunção, Paraguai. Embora a política de céus abertos para voos domésticos ainda esteja em estágio inicial, a medida foi bem recebida pelos elos da cadeia produtiva, que a consideram um avanço importante para dinamizar o mercado de aviação e apontam que o Brasil está bastante atrasado em comparação com outras economias. Por exemplo, até 2018, o Brasil permitia que companhias aéreas sediadas localmente tivessem 100% de capital estrangeiro.

Enquanto a abertura da aviação doméstica requer mais estudos, o Brasil assinou acordos com Argentina e Paraguai que imediatamente abrem novas possibilidades para operações internacionais e podem ajudar a estabelecer um mercado comum na América Latina. A possibilidade de companhias aéreas estrangeiras operarem voos domésticos (com origem e destino dentro do Brasil) abrange as oitava e nona liberdades do ar, que autorizam, respectivamente, companhias estrangeiras a estender trechos domésticos como parte de rotas internacionais, ou operar livremente sem vinculação a outro voo. Segundo o ministro, a proposta inicial é ampliar a oitava liberdade do ar, enquanto a nona liberdade seria limitada à América do Sul, criando assim um mercado único de aviação na região, semelhante ao que já existe na Europa.

A oitava liberdade do ar é considerada mais fácil de implementar, pois deriva de rotas que já podem operar no Brasil, evitando discussões sensíveis sobre segurança operacional e leis trabalhistas. Por exemplo, a TAP Air Portugal já voa de Lisboa para Belém (PA) e depois para Manaus (AM); atualmente, não está autorizada a vender passagens no Brasil para passageiros interessados apenas nesse trecho doméstico. Se a oitava liberdade for autorizada, a TAP já demonstrou interesse.

O Ministério de Portos e Aeroportos avalia que, em um país continental com mais de 200 milhões de habitantes, o mercado está longe do ideal. Dos mais de 5.000 municípios brasileiros, menos de 200 são atendidos por companhias aéreas, e o mercado doméstico está concentrado em três empresas: Azul, Gol e Latam. Franca afirmou que, mesmo sem a necessidade de 100% dos aeroportos operarem voos regulares, ainda há muitas cidades brasileiras com demanda que não possuem serviço de transporte aéreo, e atrair mais empresas para operar é uma forma de melhorar o nível de serviço.

Parte da resistência à iniciativa de abertura vem dos tripulantes, que se opõem a que o Brasil permita que estrangeiros componham as tripulações de voos domésticos. Franca afirmou que esse aspecto precisa ser discutido com os tripulantes no âmbito do grupo de trabalho, sendo necessário entender sua posição, respeitá-la e compreender seus objetivos. Ele questionou se, ao permitir que mais empresas operem, o Brasil conseguirá garantir mais empregos, e afirmou que aumentar o número de companhias aéreas para atingir esse objetivo depende do diálogo com os setores afetados. O ministro também destacou que o grupo de trabalho pode não chegar à conclusão de que é possível estabelecer um mercado comum, pois isso depende da coordenação regulatória e concorrencial entre os países sul-americanos, e o Brasil não pode aceitar piores condições de trabalho em nome da liberalização.

As companhias aéreas brasileiras se opõem à abertura do mercado argumentando que a entrada de empresas estrangeiras em rotas domésticas criará um ambiente de concorrência desleal, já que essas companhias não arcam com parte da estrutura de custos considerada elevada no Brasil. Franca argumentou que o Brasil deve criar um ambiente de concorrência saudável, no qual as empresas nacionais e estrangeiras estejam em pé de igualdade, e que o mercado é suficiente para todos os participantes. Ele afirmou que aqueles que hoje não usam transporte aéreo começarão a usá-lo, pois terão acesso a serviços que atualmente não possuem. O esforço para permitir a entrada de mais empresas não ignora o compromisso do governo em tornar o ambiente operacional mais saudável para as empresas existentes, como por meio da aprovação de R$ 13,56 bilhões em empréstimos para companhias aéreas pelo Fundo Nacional de Aviação Civil (FNAC), além de medidas para mitigar os impactos da guerra no Oriente Médio. Franca destacou: "Nesse processo geopolítico, não conheço nenhum país que tenha feito o que o Brasil fez". Ele também mencionou que as conversas com o Ministério da Fazenda continuam para que as companhias aéreas obtenham um tratamento mais favorável no novo sistema tributário – sob a forma como a reforma do imposto sobre o consumo foi aprovada no Congresso, o setor afirma que o impacto nas tarifas pode ultrapassar 20%. Franca afirmou que também houve diálogo com o Ministério da Fazenda sobre a redução do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e do Imposto de Renda (IR) sobre o leasing de aeronaves.

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