De acordo com pt.wedoany.com-A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) do Brasil abriu audiência pública para a nova concessão da Malha Sul, procedimento que visa apresentar o projeto proposto e coletar contribuições das partes interessadas.

Essa iniciativa decorre de uma escolha de política pública brasileira: avançar com estudos para uma nova licitação, em vez de prorrogar a concessão atualmente operada pela Rumo Malha Sul. O modelo proposto apresenta mudanças significativas em relação ao vigente, tendo como núcleo a redivisão da malha ferroviária em três corredores: Corredor Paraná-Santa Catarina, Corredor Rio Grande e Corredor Mercosul.
Segundo avaliação da ANTT, o Corredor Paraná-Santa Catarina responde atualmente por cerca de 78% do volume total da Malha Sul, transportando principalmente cargas de comércio exterior. O valor presente líquido desse corredor é de R$ 4,4 bilhões (com base na data-base de abril de 2025 dos estudos), indicando viabilidade econômica do projeto. O Corredor Rio Grande, integralmente localizado no estado do Rio Grande do Sul, responde por 17% da demanda da malha, mas apresenta um déficit de viabilidade de R$ 800 milhões, ou seja, a receita não cobre os investimentos previstos. A situação econômica do Corredor Mercosul é ainda mais frágil: esse trecho transporta principalmente combustíveis, com déficit de viabilidade estimado em R$ 2,1 bilhões, e seus gastos de capital chegam a R$ 2,9 bilhões, próximos dos R$ 3,2 bilhões previstos para o Corredor Paraná-Santa Catarina, sendo diretamente afetado pelos eventos climáticos de 2024 no Rio Grande do Sul.
Para suprir os déficits de viabilidade dos Corredores Rio Grande e Mercosul, o projeto introduz um mecanismo de investimento cruzado em conta específica. Nesse arranjo, a principal fonte de recursos é constituída pelas contribuições do novo concessionário do Corredor Paraná-Santa Catarina; caso essas contribuições sejam insuficientes, está prevista a utilização de investimento cruzado de outros concessionários, sendo o último recurso o uso de fundos públicos.
Essa proposta gerou intenso debate no setor. Na primeira reunião pública realizada em 16 de julho em Brasília, os participantes mostraram-se polarizados quanto à divisão da Malha Sul. Os defensores argumentam que a divisão romperá a significativa heterogeneidade dentro da mesma malha ferroviária, que faz com que trechos de menor demanda sejam negligenciados, além de contribuir para atrair investidores regionais. Os críticos apontam que a divisão não apenas perpetuará o foco em trechos de alta rentabilidade, mas também pode agravar a negligência com trechos ferroviários antieconômicos, e temem que o modelo de investimento cruzado prejudique os investimentos necessários no Corredor Paraná-Santa Catarina devido à transferência de recursos. Há também quem questione o modelo econômico-financeiro do projeto, argumentando que mudanças nas premissas de tarifas, custos operacionais e gastos de capital trazem riscos de sustentabilidade, além de superestimar o EBITDA e subestimar os investimentos de manutenção.
Na reunião pública, teve grande repercussão a manifestação do Conselho de Desenvolvimento e Integração Sul (Codesul), composto pelos governadores do Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Mato Grosso do Sul. Santa Catarina solicitou à Justiça, dois dias antes da reunião, a suspensão da audiência pública, mas o pedido de liminar foi negado; pedido semelhante também foi apresentado ao Tribunal de Contas da União (TCU). No relatório do TCU, o ministro Antonio Anastasia solicitou que o Ministério dos Transportes, a ANTT e a Infra S.A. se manifestassem sobre questões relacionadas, incluindo os documentos de suporte para a definição dos corredores, as medidas para garantir a participação dos estados e o tratamento de indenizações, multas e outros pagamentos relativos aos aproximadamente 2.994 km de trechos ferroviários não incluídos nos corredores da audiência e à concessão atual.
O prazo para contribuições à audiência pública da Malha Sul encerra-se em 10 de agosto de 2026. Além de sugestões por escrito, serão realizadas reuniões públicas presenciais em Curitiba, Porto Alegre e Florianópolis. Todas as contribuições serão analisadas e respondidas pela ANTT, e os documentos do projeto serão consolidados e atualizados. Após aprovação final, os documentos serão submetidos ao TCU, que normalmente decide sobre o aperfeiçoamento da minuta do edital ou do modelo proposto. O prazo contratual expira em fevereiro de 2027; considerando a complexidade do modelo, a ANTT já discute a assinatura de termo aditivo para prorrogar o contrato em até 24 meses, a fim de evitar interrupção dos serviços.









