UE lança pacote de soberania tecnológica abrangendo chips, nuvem e IA
2026-06-09 11:45
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De acordo com pt.wedoany.com-A Comissão Europeia lançou recentemente um Pacote de Soberania Tecnológica (Tech Sovereignty Package), abrangendo quatro áreas principais: chips, nuvem e inteligência artificial, ecossistema de código aberto e digitalização energética, com o objetivo de aliviar a dependência estrutural da UE em tecnologias digitais críticas. Uma análise preliminar do Centro de Estudos de Políticas Europeias (Center for European Policy Studies, Cep) considera que este é o esforço mais coordenado da UE até à data para resolver o problema da dependência tecnológica, mas também apresenta riscos — o ponto crucial reside em como a Europa define e implementa a sua autonomia, em vez de escolher entre fechamento e abertura.

Itália-Europa

Este pacote surge num contexto de dados realistas preocupantes: de acordo com o Relatório Draghi, a UE ainda depende de fornecedores não europeus em mais de 80% dos seus produtos digitais, serviços, infraestruturas e propriedade intelectual. Esta vulnerabilidade tem uma dupla dimensão industrial e geopolítica — a inteligência artificial, a cibersegurança, a gestão de dados públicos e as redes energéticas digitalizadas dependem de componentes e plataformas controlados por entidades estrangeiras. Para tal, Bruxelas avança com intervenções em várias frentes em simultâneo: revisão da Lei dos Chips (Chips Act) para impulsionar a produção de semicondutores avançados; criação da Lei da Nuvem e do Desenvolvimento da Inteligência Artificial (Cloud and AI Development Act, abreviada como Cada) relativa às infraestruturas de nuvem e IA; revitalização do código aberto através da Estratégia para o Ecossistema Digital Aberto; e resposta aos constrangimentos dos centros de dados com um roteiro energético. A Comissão Europeia considera que confiar apenas em financiamento de investigação ou na definição de princípios gerais já não é suficiente para enfrentar os desafios atuais, sendo necessário, em simultâneo, estimular a procura, construir infraestruturas, manter software e garantir o fornecimento de eletricidade.

A nova versão da Lei dos Chips desloca o foco da investigação para a comercialização. Em comparação com a versão de 2023, que se centrava em linhas-piloto e estruturas de coordenação, o novo plano propõe a construção na Europa da primeira fundição aberta (open foundry) orientada para processos abaixo dos 3 nanómetros, com produção-piloto prevista entre 2030 e 2033. O pacote introduz também Aceleradores de Procura (Demand Accelerators), que vinculam produtores e compradores através de acordos de pré-compra. Matthias Kullas, especialista em semicondutores do Cep, salienta que, dada a atual situação geopolítica, a Europa deve aumentar a sua autossuficiência na produção de chips, e o foco na procura pode enviar sinais credíveis aos investidores; no entanto, os elevados custos de construção, os longos prazos de aprovação e a escassez de competências continuam a ser desafios do lado da oferta.

A Lei Cada centra-se na construção de soberania nos domínios da nuvem e da IA, exigindo que os Estados-Membros avaliem os sistemas públicos que dependem de serviços de nuvem estrangeiros e os classifiquem de acordo com níveis de soberania. O objetivo da lei é triplicar a capacidade dos centros de dados europeus nos próximos cinco a sete anos, exigindo um investimento de cerca de 200 mil milhões de euros, maioritariamente do setor privado. A Cada propõe quatro níveis de soberania de nuvem, com critérios que abrangem o controlo dos serviços e da cadeia de abastecimento, a localização do processamento de dados de inferência de IA, a localização das infraestruturas e o nível de cibersegurança. Philipp Eckhardt, economista do departamento de Tecnologias de Informação do Cep, considera que este quadro de avaliação pode ajudar as administrações públicas a identificar melhor a sua exposição ao risco, mas o perigo reside no facto de, se os resultados da análise se transformarem numa preferência generalizada nas aquisições, poderem levar a um aumento de custos e a uma redução da concorrência. O especialista exemplifica que o Esquema Europeu de Certificação de Cibersegurança para Serviços de Nuvem (European Cybersecurity Certification Scheme for Cloud Services, Eucs) esteve parado durante anos devido à incorporação de controvérsias políticas, como a localização de dados, em mecanismos técnicos. Eckhardt sublinha que a Cada deve distinguir entre sistemas verdadeiramente sensíveis e a maioria dos casos de uso de nuvem: os primeiros podem estar sujeitos a requisitos rigorosos de soberania, enquanto os segundos devem priorizar a competitividade, a portabilidade e o preço.

A Estratégia para o Ecossistema Digital Aberto propõe o uso do código aberto como alavanca estratégica para a soberania tecnológica. A UE já financia iniciativas abertas em várias áreas, como o projeto openEuroLlm e a Carteira Europeia de Identidade Digital, mas sempre careceu de um modelo de manutenção coerente. A Comissão Europeia planeia criar um Instrumento de Manutenção de Código Aberto (Open-Source Maintenance Instrument) para fornecer apoio financeiro de longo prazo, estabelecer uma Fundação Europeia de Infraestruturas Públicas Digitais (European Digital Public Infrastructure Foundation) para gerir os repositórios de código e implementar o princípio de "código aberto por defeito" nos concursos públicos de I&D. Anselm Küsters, especialista em digitalização do Cep, considera que a soberania é um pré-requisito para a abertura, e não o seu oposto — se a Europa não conseguir construir e manter, de forma autónoma, pelo menos parte das suas infraestruturas digitais críticas, perderá a capacidade de negociar com fornecedores e adversários geopolíticos. No entanto, o Cep também aponta as limitações da escala de financiamento: a Comissão Europeia prevê um total de cerca de 2 mil milhões de euros em fundos públicos e privados ao longo de sete anos, um valor muito reduzido face aos 264 mil milhões de euros anuais gastos em TI proprietária, pelo que os fundos devem estar claramente vinculados a obrigações de manutenção, e não apenas ao arranque de projetos.

O Roteiro Energético enfrenta diretamente a pressão do rápido crescimento dos centros de dados. Até 2030, prevê-se que a procura de eletricidade dos centros de dados da UE mais do que triplique, com a capacidade instalada a aumentar de cerca de 10 GW para cerca de 35 GW, o que poderá sobrecarregar seriamente as redes elétricas e o planeamento energético regional. O roteiro traça três caminhos: integrar os centros de dados no planeamento das redes elétricas nacionais, através de acordos entre operadores, autoridades públicas e entidades energéticas; utilizar a IA nos sistemas energéticos para otimizar as redes e aumentar a flexibilidade do lado da procura; e introduzir um regime de classificação da eficiência dos centros de dados, que considere a eficiência energética, o consumo de água, a utilização de energias renováveis e a reutilização do calor residual. A análise sugere que, sem uma gestão eficaz do crescimento energético, a soberania tecnológica poderá enfrentar constrangimentos físicos antes mesmo dos industriais; a estreita ligação entre as políticas digital e industrial torna-se aqui evidente: a IA precisa de nuvem, a nuvem precisa de chips, os chips precisam de fábricas, e as fábricas e os centros de dados precisam de energia, com cada elo a condicionar os restantes.

O Cep apresenta recomendações sensíveis no domínio das aquisições públicas. O pacote pode utilizar a procura pública como alavanca industrial, mas requer uma operação cuidadosa: no setor da nuvem, as aquisições como instrumento de soberania devem limitar-se a áreas de segurança claramente definidas, com requisitos especiais determinados pelo legislador e não delegados em atos de execução ou sistemas de certificação; no setor dos chips, a procura pública pode ser usada para apoiar o investimento em novas fábricas, com as AI Gigafactories e as Zonas de Aceleração de Centros de Dados (Data Centre Acceleration Zones) a poderem desempenhar o papel de clientes de referência, desde que as regras de aquisição reforcem efetivamente a procura. O Cep estabelece uma condição clara: as preferências de aquisição só podem consolidar o caso industrial das novas fábricas europeias se a qualidade do hardware de origem europeia for competitiva; caso contrário, o investimento continuará frágil.

A mensagem central da análise do Cep é: soberania tecnológica não significa desacoplamento. A declaração estratégica da Comissão Europeia sublinha que isto não implica isolamento, protecionismo ou fechamento tecnológico. Num sentido forte, soberania significa a capacidade de agir livremente — escolher entre fornecedores, mudar de plataforma a um custo não excessivo e, quando necessário, colocar cargas sensíveis sob a jurisdição adequada. Excluir automaticamente fornecedores estrangeiros dos concursos públicos não é a intenção; o objetivo é que a Europa possa negociar no mercado a partir de uma posição de menor dependência. O desafio reside em evitar que a soberania se torne sinónimo de protecionismo de longa duração. A história industrial europeia mostra que barreiras e preferências podem gerar indústrias protegidas em vez de competitivas, com riscos ainda maiores em setores tecnológicos de rápida evolução. A qualidade da elaboração das regras será determinante, exigindo bases jurídicas claras, avaliações de impacto, supervisão parlamentar e critérios proporcionados; a soberania tecnológica não pode ser construída transferindo escolhas políticas para organismos técnicos sem mandato adequado.

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